Há algum tempo eu escrevi esse texto,é ainda incompleto e precisa de algumas correções.Espero que gostem e me poupem de criticas férreas,
o título provisório era Amor proibido, mas esse é um dos detalhes que quero modificar.
A dor dilacera minhas entranhas. Minha alma está agora entregue a perdição de amar e sofrer. Meus olhos se afundam em lágrimas e vejo distorcida a imagem de quem amo partir.
Deixo-me cair na estrada poeirenta e o meu peito sacode em soluços duramente reprimidos. Fico assim, encolhida, apertando-me em um abraço forte, na ausência de braços acolhedores que possam me reconfortar na minha dor. Uma parte de mim sangra, mas não sei ao certo onde.
Olho para o céu e nuvens cinzas prenunciam a vinda de uma tempestade. O vento fustiga a vegetação rasteira, seca, típica do sertão nordestino e a terra rachada se umedece com os primeiros pingos de água. Ao longe ouço gritos extasiados de crianças alegres pela chuva e me lembro com saudades da época em que vivia despreocupadamente dançando e correndo pelo quintal com cabaças para apanhar a água da chuva.
Olho para a estrada infinita, e lágrimas e chuva correm como dois rios pelas minhas faces. O céu chora pela minha desgraça e a terra já barrenta me olha impiedosamente, sou uma filha renegada a própria sorte. Agarro firmemente a cruz atada ao meu pescoço. Presente do único homem que amei e irei amar por toda a minha vida. Se Deus me despreza e me nega a salvação por ter me envolvido com um dos seus pregadores já não mais me importa. Ele me abandonou há muito tempo. Desde o momento que me deixou ali a mercê das violências cotidianas, da fome e da sede e de todas as privações que sofri presa entre esses arbustos.
A chuva fica mais forte e pingos caem com violência sobre a minha cabeça.Tento me erguer, mas não tenho forças, devem ter me abandonado junto com a alegria dos últimos dias.
Daquela noite. Do único pecado de que não me arrependo.
O vi pela primeira vez na porta da igreja, com aqueles enormes pares de olhos azuis e com uma voz melodiosa, me dizendo para entrar. Por instinto,dei um passo para trás.
-Não posso respondi.
-Todos podem entrar na casa de Deus.
-Até as mulheres da vida padre? Disse ironicamente. Mas ele fingiu não sentir minhas últimas palavras. Continuou ali, postado diante da porta, com as mãos erguidas, me convidando para entrar.
- Bebe alguma coisa? é hora do chá falou casualmente.
Meu estômago roncava há dias e sem pensar aceitei. Desde o dia em que fui expulsa da casa da Baronete, perambulava pelas ruas sem destino.
Sem rumo brincava de ficar perdida entre ruas e de esconde-esconde entre as alamedas, sempre sozinha. A solidão sempre foi minha companhia. É a minha sombra que me segue mesmo quando estou deitada na cama com mais um homem por uns trocados.
Entrei receosa na igreja e ela me pareceu uma grande nave desconhecida. O ar era impregnado do odor acre de flores mortas e de livros velhos. Senti um vento bater em minhas costas e um arrepio percorreu todo o meu corpo ,deixando-me em alerta. Era o meu instinto de sobrevivência, algo me dizia para sair, para me distânciar daquela igreja. Mas eu ignorei o sentimento de urgência e passei entre as cadeiras cuidadosamente enfileiradas, com o olhar fixo nos vitrais coloridos que despendiam do teto. Minhas mãos tremiam e um riso nervoso escapou pelos meus lábios, ecoando por toda a igreja. Foi então que vi a estátua de Maria, com o seu imenso manto azul e os braços estendidos abertos, era como se eu ouvisse ela dizendo: Venha a mim e eu te perdoarei..
Mas o seu pedido soava muito distante.
- Gosta de santos?
- ahh…D-esculpa eu estava..
- Admirando a beleza dos santos. Disse depositando em minhas mãos uma xícara fumegante de chá que desprendia pelo ambiente um perfume gostoso. Como se fosse feito em um outro mundo e me perguntei se aquele homem diante dos meus olhos não fosse um anjo. Ele viu minha cara de curiosidade e desabrochou um pequeno sorriso.
- Você é ainda uma menina. Afirmou com uma certa reserva, como houvesse medo de me machucar.
-É o senhor muito moço para ser padre. Repliquei. E vi novamente um sorriso aparecer entre os seus lábios finos.
Foi então que um vento forte lançou uma cadeira em nossa direção. Na verdade até hoje me pergunto se aquele vento foi ocasional, obra da natureza ou qualquer força divina, que tentava repelir a atração que já inconscientemente nutriva um pelo outro.
-Cuidado!!gritei ao ver a cadeira vir na sua direção. E ouvi minha voz ecoar por toda aquela nave. Mas não parecia a minha voz. Parecia a voz de uma criança que irritadamente me imitava. Saí do meu estado de estupor ao ver o padre caído, rodeado pelos pedaços da xícara despedaçada.
-Não se preocupe, acidentes acontecem. Disse com forçada naturalidade, mas no íntimo sabia que ele não acreditava nas suas próprias palavras.
-Deixe-me ajudá-lo. Falei hesitante.
Sua cara parecia assustada, suas pupilas eram dilatadas e havia uma expressão de incredulidade em sua face. Abaixei minha cabeça percebendo a minha presunção. Muitos haviam me repelido como se eu tivesse a peste por minha condição. Foi então que criei coragem e falei.
- Todos não somos iguais padre?
- Todos.
Então se deixou apoiar nos meus ombros…….